Após empate, seleção viaja hoje para Salvador para jogo decisivo

Treinador abandona área técnica no segundo tempo e justifica lembrando dificuldade de comunicação com atletas. Presidente da CBF liga e passa conforto à comissão

Por Josemar 08/08/2016 - 11:02 hs

Ausente da maioria dos jogos da seleção principal - pelo temor de ações da Justiça americana fora do território nacional -, o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, assistiu in loco o segundo empate da seleção olímpica na Rio 2016. O novo 0 a 0 - desta vez com o Iraque - deixou todos em sinal de alerta. Del Nero, que retornou para o Rio de Janeiro pouco depois do jogo, entrou em contato com o coordenador de base Erasmo Damiani e passou apoio à comissão técnica. O momento é delicado. O técnico Rogério Micale vive tensão inédita na carreira e o cenário gera dúvidas.

Nesta segunda-feira à tarde a seleção viaja para Salvador e tem na quarta-feira jogo decisivo contra a Dinamarca. Em jogo, a classificação e muito mais. Até para o técnico Micale. Cercado de boas expectativas desde a convocação até a preparação para Teresópolis e o amistoso contra o Japão, o técnico foi o primeiro a admitir em entrevistas que a vida dele mudava junto com o salto e a responsabilidade de comandar o Brasil em busca do ouro olímpico.

Dois jogos depois, a palavra que melhor resume o entorno da seleção olímpica poderia até ser luto, como o treinador disse na entrevista coletiva. O hall de entrada do hotel da seleção após o jogo - com familiares de jogadores - era realmente digno de um velório. Mas a melhor definição é preocupação. Micale tem a missão de fazer o grupo reagir em contexto de proporções que ainda não vivenciou na bem-sucedida carreira de treinador de categorias de base.

Brasil x Iraque (Foto: Raphael Zarko)À direita, técnico do Iraque assiste ao jogo. Micale passou quase todo o segundo tempo no banco (Foto: Raphael Zarko)

No jogo contra o Iraque, o comportamento do treinador em boa parte do jogo - sobretudo no segundo tempo - chamou atenção. Micale pouco ficou na área técnica destinada aos treinadores. Postura, por exemplo, diferente do amistoso contra o Japão, no Serra Dourada, e também do jogo de abertura da olimpíada para o time contra a África do Sul. 

Na coletiva de imprensa, Micale disse que não via necessidade de ficar ao lado do campo, lembrando que não seria ouvido pelos jogadores com tanto barulho provocado pelo público. No segundo tempo, subiu ao campo para falar com Neymar e mostrou nervosismo ao reclamar da cera do goleiro do Iraque.

- Fui algumas vezes na área técnica quando achei necessário. Ali no momento é complicado. São 69 mil pessoas gritando. Por mais que eu grite a gente não consegue se comunicar tão bem. Quando sentia que era necessário eu passava instruções. Não houve nenhum tipo de situação (o motivo do comportamento diferente). Não adianta ficar gesticulando, não reflete em nada para os jogadores. Estão preocuipados em fazer o trabalho deles, não estão olhando gesto do treinador. Não vejo nenhum tipo de dificuldade por não ficar ali a todo momento - justificou treinador.

Mudanças à vista

No fim da partida, ao lado do auxiliar Odair Hellman, Micale entrou em campo, cumprimentou e abraçou os jogadores. Um dos líderes do grupo e voz ativa de Micale no campo, Marquinhos disse que não fazia diferença a distância do treinador na beira do gramado.

- O professor Micale passa o que temos de saber antes da partida e no intervalo. Muitas vezes nem olhamos para o treinador na beira do campo, ou ele levanta e fala para quem está perto. Não adianta ele gritar, os 11 jogadores não vão escutar. Temos total confiança no nosso treinador, ele vem fazendo o melhor, nós também estamos tentando fazer nosso melhor. Todo mundo saber que não estamos no nosso melhor momento. Mas no próximo jogo vamos tentar fazer algo mais para sair vencedor - afirmou o zagueiro do PSG.

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Fato é que o nervosismo do Brasil em campo favoreceu o trabalho do Iraque, como admitiram técnico e jogadores adversários. Os dois resultados sem gols devem levar o treinador a modificar a equipe - embora Micale não tenha afirmado que vai fazê-lo, a necessidade da vitória e o trio de ataque que não marcou gol em 180 minutos pode estar com os dias contados. A comissão vai fazer nova avaliação e, internamente, a expectativa é por mudanças. Gabriel Jesus deve ser o escolhido para sair. Luan pode pintar no ataque.

Anteriormente, Micale disse que não mudaria suas convicções por causa de uma partida ruim. Com o segundo resultado aquém das próprias expectativas e o desempenho inofensivo do trio de ataque - notavelmente de Jesus nas duas partidas e de Neymar contra o Iraque -, o técnico pode até não mudar em absolutamente nada seu entendimento de futebol. O renovado discurso de Micale provoca reflexões na cultura imediatista do futebol brasileiro, mas o técnico de 47 anos tem pouco mais de 48 horas para ir atrás do objetivo menos teórico do momento: a classificação para a próxima fase da olimpíada. O resultado.