A reclassificação de Plutão e os planetas do Sistema Solar

Oito, nove, dez? Essa não é uma contagem qualquer, mas o número de planetas do Sistema Solar.

Por Josemar 23/06/2017 - 08:22 hs

É assim.

Desde a reclassificação de Plutão para planeta anão em 2006, o Sistema Solar ficou com oito planetas. Tudo isso teve origem na descoberta de Éris, um objeto do Cinturão de Kuiper. Para além da órbita de Netuno, existe uma nuvem de objetos formados a partir do que restou da nuvem de gás e poeira que deu origem ao Sistema Solar. Esses objetos são muito ricos em gelos, como gás carbônico e nitrogênio, por exemplo.

Além de repletos de gelo são pequenos, Éris por exemplo é só um pouco menor que Plutão. Na época de seu descobrimento sabia-se que ele até poderia ser maior e aí começou a discórdia. Se Éris tinha quase o mesmo tamanho de Plutão, ele deveria ser classificado como planeta. Era isso o que Mike Brown, o seu descobridor queria. Só que isso causava um desconforto muito grande entre os astrônomos, pois a nuvem do Cinturão de Kuiper deve ter milhões desses objetos. Com a melhoria dos instrumentos, fatalmente objetos maiores que Plutão iriam ser achados e com isso a lista de planetas só ia aumentar com o passar do tempo.

Outro problema é que Plutão em si já não se enquadra muito bem no grupo de planetas. Ele tem uma órbita muito ovalada e muito inclinada em relação a todos os planetas. Sua órbita tem as mesmas características que os tais objetos do Cinturão de Kuiper, chamados de KBOs, têm. Ou seja, Plutão foi tão somente o primeiro e maior (por enquanto) KBO descoberto. Para evitar que os livros de astronomia fossem atualizados a cada 5-10 anos, a União Astronômica Internacional decidiu que o Sistema Solar tinha 8 planetas e os KBOs muito grandes que surgissem depois seriam classificados como planetas anões. Existem regras não muito claras, mas um dos critérios é justamente o tamanho do objeto. Com isso os astrônomos acreditavam que tinham fechado a lista de planetas do Sistema Solar.

Mas Mike Brown, que se intitula o assassino de Plutão, tem a obsessão de descobrir um novo planeta. Nos seus estudos a respeito dos KBOs, ele e alguns colaboradores notaram que alguns deles têm órbitas orientadas segundo um padrão. Não são muitos, uma dúzia, mas eles todos têm órbitas com quase a mesma inclinação em relação aos demais planetas, além de estarem alinhadas, tipo uma sobre a outra. Segundo Brown e seus colegas isso não é obra do acaso, mas sim de um nono planeta no nosso Sistema Solar. Os detalhes dessa hipótese eu dei nesse post e por enquanto a busca continua sem resposta. O número de KBOs com orientação combinada aumentou, mas nada de achar o tal 'Planeta 9'. Recentemente Brown admitiu que esperava estar mais perto de uma descoberta, mas que não tinha perdido a confiança em suas contas.

Bom, então seriam nove planetas, certo? Calma, não vamos tirar conclusões precipitadas. Parece que a 'escola' de Mike Brown produziu novos alunos, ou melhor, alunas.

Duas astrônomas especialistas em KBOs parecem ter encontrado uma família deles, também com órbitas agrupadas de maneira peculiar. Kathryn Volk e Renu Malhotra recorreram a modelos computacionais onde elas simulam a evolução de uma nuvem de KBOs e tentam predizer as características das órbitas depois de milhões e até bilhões de anos. Diferente de Brown e Batygin que simularam KBOs muito distantes, Volk e Malhora simularam a situação para KBOs mais próximos e os únicos modelos que se encaixavam nas observações foram aqueles em que havia a perturbação causada por um planeta. Mais um planeta!

O mesmo aconteceu com Brown e Batygin e no caso deles deveria haver um planeta com 10 vezes a massa da Terra a uma distância de 700 vezes a distância Sol-Terra, chamada de unidade astronômica (ua). Para Volk e Malhora a solução é dada por um planeta com apenas 11% da massa da Terra, um planeta como Marte, por exemplo. Esse Marte hipotético estaria a 100 ua de distância. Para você ter uma ideia, Plutão está, em média, a uma distância de 40 ua.

Batygin, que inspirou o trabalho da dupla de astrônomas gostou do resultado e achou que a ideia deve ser estudada com mais profundidade, mas vozes dissonantes já se levantaram. Um dos maiores especialistas na formação e evolução do Sistema Solar, Alessandro Morbidelli, acha difícil que um planeta com o tamanho de Marte, a uma distância relativamente curta, tenha passado despercebido pelos inúmeros projetos de mapeamento do céu, pois ele deveria ser muito brilhante. Para ele, alguns dos efeitos verificados nas órbitas dos KBOs estudados poderiam ter sido causados pelo Planeta 9.

Para solucionar a questão, mais dados! Há um projeto em andamento chamado de Origens do Sistema Solar Exterior que está procurando KBOs para mapear suas órbitas. Até o momento já são algumas centenas de objetos catalogados e o aumento do número de objetos conhecidos, os alinhamentos de órbitas vão se tornar mais claros. Se forem reais!

Imagem: Heather Roper/LPL