100 anos da Revolução Russa: veja mitos, legados e fatos essenciais que podem cair no Enem e nos vestibulares

Os 100 anos da revolução que levou ao poder o Partido Bolchevique são lembrados em 2017. Qual a chance da efeméride aparecer nas provas do fim de ano?

Por Josemar 17/10/2017 - 08:07 hs

Os debates sobre a importância do ano de 1917 para a história mundial encontram estudantes preocupados: qual a chance de a efeméride ser cobrada no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) ou em outros vestibulares? Quais os temas realmente fundamentais sobre a data?

O G1 ouviu professores de cursinhos que listaram mitos, legados e fatos essenciais. Gianpaolo Dorigo, supervisor de História do Anglo, observa que o Enem "nunca fez perguntas sobre a Revolução Russa" e "não costuma fazer perguntas a partir de datas notáveis ou efemérides em geral". Se for essa a primeira vez, veja abaixo pontos para considerar:

Mitos

"A Revolução Russa foi explicada pelos seus líderes e legitimada aos olhos de seguidores do mundo inteiro como um movimento inevitável, que seguiria o roteiro histórico do colapso global do capitalismo a partir do seu “elo mais fraco”, a Rússia, onde o desenvolvimento tardio do capitalismo gerou uma burguesia mais frágil, ou seja, mais propensa à derrubada pelo movimento popular. Toda essa narrativa converteu-se em um mito, devido à derrocada futura do regime, à falta de unidade do socialismo mundial e ao prosseguimento da história fora de qualquer roteiro previsto ou estrutura rígida", comenta Gianpaolo Dorigo, supervisor de História do Anglo.

"A Revolução Russa foi explicada pelos seus líderes e legitimada aos olhos de seguidores do mundo inteiro como um movimento inevitável" - Dorigo

"Um mito em torno da Revolução Russa seria a ideia de que Stálin teria distorcido os princípios do movimento ao se tornar um ditador. Em primeiro lugar, a história da Revolução Russa de 1917 compreendeu uma intensa disputa entre diversos grupos políticos com projetos muito variados para o futuro do país, sendo que a ascensão dos comunistas representa uma parte desse processo. Em segundo lugar, os bolcheviques, que atuaram ao lado de Lênin ou sob sua liderança, consideravam a violência como instrumento de luta política e a ditadura do proletariado como caminho para o socialismo", explica Thomas Wisiak, coordenador de História do Grupo Etapa.

"Um mito em torno da Revolução Russa seria a ideia de que Stálin teria distorcido os princípios do movimento ao se tornar um ditador." - Wisiak

"- 'Sim, ela também morreu’. Essa é uma das respostas a uma das mais tradicionais curiosidades dos alunos na aula sobre Revolução Russa, a dúvida é sobre a Anástacia, uma das filhas do czar Nicolau II. Os alunos questionam se ela foi mesmo executada pelos bolcheviques. A dúvida e a curiosidade dos estudantes provavelmente foi construída pelo imaginário popular, pelo cinema e, claro, a animação da Fox Filme que leva o nome da princesa, em que esta supostamente se salvara. O porquê da execução é algo mais obscuro, pois cogita-se que ordem pode ter partido de Moscou ou de um soviete local, no entanto, é provável que isso tenha relação com o receio de uma restauração czarista em meio à guerra civil que transcorria após a Revolução”, diz Kaili Takamori, professora de História do Cursinho da Poli.

"Um mito em torno da Revolução Russa seria a ideia de que Stálin teria distorcido os princípios do movimento ao se tornar um ditador." - Kaili

Legados

"Teses recentes sugerem como principal legado da Revolução Russa foi nada menos que o bem-estar social, ou seja, a distribuição e renda em larga escala nos países capitalistas avançados, sob a forma de educação, saúde e habitação para os setores populares. O temor de movimentos revolucionários socialistas ou de uma guinada rumo ao bloco soviético, principalmente nos anos da Guerra Fria, acabou estimulando os governos dos países capitalistas avançados a adotarem práticas socialdemocratas de distribuição e renda. Tal legado permanece até hoje, em que pesem as crescentes críticas ao modelo justamente após o fim da União Soviética", diz Gianpaolo Dorigo, supervisor de História do Anglo.

"Teses recentes sugerem como principal legado da Revolução Russa foi nada menos que o bem-estar social, ou seja, a distribuição e renda em larga escala nos países capitalistas avançados, sob a forma de educação, saúde e habitação para os setores populares." - Dorigo

"Um legado num sentido mais estrito seria a intensa industrialização e urbanização do país, que continua sendo uma potência militar e, principalmente, nuclear. Num sentido mais amplo, a URSS exerceu uma grande influência na política mundial ao longo do século XX, tornando-se um paradigma para movimentos de libertação nacional, especialmente no chamado terceiro mundo", diz Thomas Wisiak, coordenador de História do Grupo Etapa.

"Guardadas as devidas proporções, é habitual a comparação entre a Revolução Russa (1917) e a Francesa (1789), por vezes, compara-se a francesa com a Revolução Inglesa (1642) também, embora este não seja exatamente nosso objeto de reflexão. Contudo, podemos observar uma gradação com relação à participação popular nestes movimentos: na Inglaterra, a participação de camponeses foi muito pequena, ao passo que na França revolucionaria esse número é ampliado vultuosamente; já na Rússia, os novos tempos trazem além dos trabalhadores rurais uma significativa participação de trabalhadores urbanos como nunca fora vista antes. Se quisermos trazer o objeto de reflexão para a América, em 1910, iniciou-se uma revolução no México em que também foi possível observar a expressiva participação popular", conta Kaili Takamori, professora de História do Cursinho da Poli.

"Ou seja, O século XX nos apresenta, logo nos seus primeiros anos, processos revolucionários em que o povo tenta conquistar um protagonismo social – mas entre tentar e conseguir existe um abismo" - Kaili

Fatos essenciais

"Um fato essencial é a onda de greves operárias na cidade de Petrogrado - iniciada principalmente por mulheres que trabalhavam na indústria têxtil, no final de fevereiro de 1917 (segundo o calendário adotado na época) e que levaram à abdicação do czar Nicolau II. A renúncia do monarca absolutista desencadeou uma disputa pelo poder que destruiu o antigo império e resultou na organização da URSS", afirma Thomas Wisiak, coordenador de História do Grupo Etapa.

"Um fato essencial é a onda de greves operárias na cidade de Petrogrado - iniciada principalmente por mulheres que trabalhavam na indústria têxtil, no final de fevereiro de 1917 (segundo o calendário adotado na época) e que levaram à abdicação do czar Nicolau II." - Wisiak

"O fato essencial da Revolução Russa é a Revolução de Outubro, ou seja, o golpe do Partido Bolchevique contra o Governo Provisório. Dessa forma, a possibilidade de criação e um regime liberal foi afastada – mesmo porque o Governo Provisório adotava medidas bem pouco populares", conta Gianpaolo Dorigo, supervisor de História do Anglo.

"O modelo de organização e atuação do Partido Bolchevique, baseada na disciplina e na subordinação das massas aos quadros dirigentes, já anunciava a tendência de organização estatal que seria criada a partir de então" - Dorigo

"A Revolução não começou em 1917. O que se assiste no princípio de 1917 é a explosão de um processo revolucionário que vinha sendo maturado há tempos dentro do Império Russo, a exemplo da Revolução de 1905, que muitos historiadores consideram uma pré-revolução ou para alguns o primeiro ano da Revolução", diz Kaili Takamori, professora de História do Cursinho da Poli.

"Alguns dos episódios de 1905 como o levante do Encouraçado Potemkin, o Domingo Sangrento, a prisão – ordenada pelo czar – dos membros do Soviete de São Petersburgo ou as greves de Moscou evidenciam a iminência de algo maior que se gestava" - Kaili